China Angústias Analógicas e Certezas Digitais

China: angústias analógicas e certezas digitais

Estou no hotel neste fim de tarde, um dos últimos desta minha viagem à China, tentando organizar minhas ideias para escrever. Confesso que não sei exatamente por onde começar, tantas e tão impactantes foram as coisas que vi nestes 10 dias.

Tenho viajado para muitos diferentes países nos últimos anos, a turismo e a trabalho, e já faz tempo que não me surpreendia, da forma como me surpreendi aqui.

Temos falado muito sobre “experiências”. Cada vez mais, todos queremos tê-las: viajando, explorando, consumindo, participando e aprendendo com culturas e sentimentos novos. Viajei para cá preparado para visitar grandes fábricas e empresas de tecnologia e de varejo digital, e conhecer como estão construindo seus produtos e soluções de larga escala.

Também tinha como objetivo poder vivenciar os grandes centros urbanos chineses, seus hábitos e a forma como a população interage com as tecnologias digitais. Eu trouxe uma visão prévia estabelecida, de que a maioria destas inovações haviam sido criadas fora da China, e estariam apenas sendo fabricadas e replicadas aqui, e vi que esta visão já não reflete mais a realidade.

O que eu não esperava ver, em tanta profundidade, foram as novas experiências de interação social, entretenimento e consumo, viabilizadas pela integração e aplicação de tecnologias disruptivas. Inteligência Artificial, Machine Learning e Big Data, estão aqui de fato integradas ao mundo real, de forma muito mais ampla que nas Américas ou Europa. E tudo em uma escala e velocidade que não havia ainda visto em nenhum outro lugar do planeta.

A ideia que muitos de nós – onde me incluo – temos, ou tínhamos, sobre a China, como sendo o grande chão de fábrica do mundo, produzindo essencialmente artigos baratos e de baixa qualidade em larga escala, não poderia ser mais diferente da realidade que vi aqui.

Um bom estudo de caso são os laboratórios de inovação das grandes empresas de tecnologia da China que pude conhecer. Eles são abertos e integrados à economia das comunidades em que estão inseridos. Imagine o Alibaba, que é uma das gigantes da internet Chinesa, decidindo construir um Hotel Laboratório, o Fly Zoo, em Hanghzou, para poder explorar inovações nas experiências de interação digital.

As soluções e produtos de inovação sendo desenvolvidas no Alibaba, não seriam exploradas e testados da mesma forma, com a mesma velocidade, se não estivessem expostos a uma interação real com consumidores, como a que o Fly Zoo Hotel tornou possível.

A operação do hotel é totalmente automatizada: você reserva online, e faz o check-in sozinho, sem filas, sem espera, sem fricção. Você então libera o elevador e abre a porta de seu quarto usando seu smartphone. Esqueceu um adaptador de tomada, ou precisa pedir toalhas extras? Em vez de ligar para a recepção, você acessa o app do hotel, e um simpático robô parecido com o r2d2 de Star Wars bate à sua porta para entregar o pedido. Quer um drink? No bar, um braço mecânico inteligente prepara o seu drink. O hotel laboratório tem mais de 200 quartos e já está com as reservas esgotadas pelos próximos 3 meses.

Visitei diferentes cidades chinesas, e em todas, tive a mesma sensação clara de estar diante de algo realmente diferente. Não só no mundo digital, mas também no mundo físico, no trânsito, na organização das cidades. Logo no primeiro dia, em Shanghai, madruguei para correr pela orla do Rio Huangpu, tirar o “jet lag” e sentir a cidade. O primeiro impacto foi ver na infraestrutura da orla, um capricho estético e uma preocupação com o verde, como poucas vezes vi em grandes cidades americanas ou europeias.

Os materiais usados na construção das calçadas e espaços de passeio, são de alta qualidade, feitos para durar. As pistas destinadas aos corredores e ciclistas na Orla em Shanghai, são seguras, espaçosas, e integradas ao ambiente de forma harmônica. A quantidade de árvores e os lindos canteiros de flores, e por fim a limpeza, estão no mesmo patamar de espaços similares que vi em cidades com Nova Iorque, Paris e Londres. Mas em nenhuma destas cidades, conheci espaços da escala e da magnitude que vi aqui.

Em Beijing, capital chinesa, minha expectativa era encontrar uma metrópole caótica. O que encontrei na realidade, foi um trânsito razoavelmente organizado, quando comparado com o que estamos habituados a ver nas grandes cidades brasileiras. Mesmo com poucos policiais nas ruas (exceto na região central, da Cidade Proibida, que é bem policiada), Beijing é uma cidade que passa uma sensação de segurança absoluta, violência próxima a zero.

Um ponto que ainda não está equacionado aqui na China, é o nível de poluição nas grandes metrópoles, que ainda é bastante alto. Dá para sentir o ar pesado quando respiramos. O país tem 1,4 bilhão de habitantes, e a grande ascensão social dos últimos anos aumentou a circulação de veículos particulares nas ruas. Ao mesmo tempo, o esforço público e privado em reduzir de forma acelerada as emissões de carbono é nítido. Em Shenzhen, terceira maior cidade chinesa, 100% da frota de ônibus já é elétrica desde 2017, e da frota de táxis também, desde 2018. As placas veiculares de cor verde identificam os carros elétricos, que estão próximos de dominar o trânsito de veículos particulares também.

Aliás, sobre Shenzhen, a velocidade de transformação que ocorreu na cidade, é inacreditável. Em 1979, era uma pequena vila de pescadores, com menos de 200 mil habitantes. Foi então escolhida pelo governo central, para se tornar uma das 4 “Special Economic Zones”, modelo que a China escolheu para implementar de forma gradativa, a abertura da economia no país, começando por algumas cidades-piloto.

Apenas 40 anos depois, a metrópole de Shenzhen tem 23 milhões de habitantes. Tornou-se um dos maiores polos tecnológicos do mundo. Cidades como Shenzhen tem se beneficiado dos sólidos investimentos em educação que estão sendo feitos de forma intensa, em todos os níveis educacionais. E com uma ênfase especial para a formação de nível técnico e ensino superior nas áreas STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics), que representam 40% das graduações de nível superior no país. A China forma quase 5 milhões de profissionais STEM anualmente, aproximadamente 10 vezes mais que os Estados Unidos.

Com mão de obra de engenheiros sendo formada em larga escala, Shenzhen abriga hoje, por exemplo, a matriz da Tencent, que é dona do WeChat, o maior “Monster App” Chinês, um misto de rede social, aplicativo de mensagens e sistema de pagamentos. Também tem sua sede em Shenzhen a BYD, maior fabricante de veículos elétricos do mundo na atualidade. Já é maior que a Tesla. A BYD opera num modelo totalmente verticalizado, amplamente diferente da maioria das indústrias automobilísticas tradicionais: ao invés de terceirizar a fabricação de componentes para fornecedores sistemistas, ela tem as patentes, domina a tecnologia e fabrica todos os componentes-chave: os sistemas de baterias, os motores elétricos, e o software que controla os veículos. Além disto, fabrica também sistemas de coleta e armazenamento de energia solar, e veículos elétricos de grande porte e transporte em massa, como ônibus, caminhões e trens.

Tudo na China é colossal, e em certos aspectos, angustiante. Estar aqui fortalece a sensação de que somos muito pequenos e irrelevantes diante de tudo isto. Durante o meu deslocamento de Shanghai para Hanghzou, fiquei observando a sucessão de condomínios verticais ao longo da estrada, com prédios de 20 a 30 andares, de ótimo padrão de qualidade (muito superior ao dos conjuntos habitacionais populares no Brasil), que se repetiam, um após o outro, a perder de vista. Construções praticamente iguais umas às outras, às centenas, ao longo de aproximadamente 100km. Algo de magnitude assustadora.

As redes sociais, como nós conhecemos no Brasil, e no mundo ocidental em geral, foram reinventadas aqui na China. Não há Facebook, Google ou WhatsApp. As grandes empresas de tecnologia chinesas, como Alibaba, Tencent e Baidu, criaram através dos seus “Monster Apps”, ecossistemas inteiros de negócios. São plataformas diferentes, que integram redes sociais, conteúdo, comércio e sistemas de pagamento, de forma muito mais abrangente do que seus pares na América do Norte ou Europa. Mais de 90% dos pagamentos na China são feitos através de smartphones ou reconhecimento facial. Cartões de crédito quase não são usados. E o dinheiro vivo está em extinção.

Não dá para deixar passar em branco a constatação de que, além da escala, do gigantismo de tudo, as diferenças culturais em relação à nossa realidade ocidental, também são brutais. A naturalidade com que os cidadãos chineses aparentam aceitar ter seus dados e comportamentos monitorados em tempo integral, seja pelo governo, ou pelas grandes empresas de internet chinesas, é algo difícil de aceitar dentro dos padrões que temos hoje no mundo ocidental. As contradições que observei aqui são inquietantes, pois desafiam as convicções mais sólidas a respeito de nossos conceitos de liberdade individual.

Afora todos estes contrastes e aparentes contradições, tanto em Shanghai, Shenzhen, Beijing ou Hong Kong, o que mais me surpreendeu foi a forma como por trás de tudo, estão as tecnologias de transformação digital, catalisando o processo de mudanças do país. O desenvolvimento e a aplicação das inovações tecnológicas de forma massiva aqui na China, já geraram uma inércia de crescimento e transformação, que parece ser imparável, e dá a impressão de que vai atropelar o que aparecer pela frente, como uma gigantesca locomotiva em aceleração constante. Não consigo ver como os países do ocidente, mesmo os mais desenvolvidos, possam competir com isso. A combinação da escala e da inércia que já existem aqui, tornaram esta uma disputa desigual.

Volto da China com angústias sobre os desafios de mudanças nos modelos de interação e organização social que se apresentarão para nós, em especial no Brasil, ao longo dos próximos anos. Angústia de sentir que ainda estamos longe de compreender de fato o que está acontecendo na sociedade e na economia Chinesa, e quais serão seus impactos no cenário global. Angústia de ver princípios básicos de liberdade individual da nossa sociedade ocidental serem desafiados por um modelo baseado em conceitos e premissas que não cabem nas Américas ou na Europa de hoje.

Volto também com algumas certezas. Certeza sobre o protagonismo da China neste novo mundo digital. Certeza de que não podemos ficar observando à distância este novo modelo de implantação acelerada de inovações tecnológicas liderado pelos chineses. Certeza de que precisamos passar a investir pesadamente em educação, e termos assim mão-de-obra qualificada e disponível em larga escala, para podermos nos integrar às ferramentas e modelos digitais como os que estão sendo implementados na China.

Não é possível compreender com clareza todos os aspectos positivos ou negativos e a influência que estas transformações, ocorrendo aqui, terão no resto do mundo. Mas uma coisa me parece inquestionável: A China já é a locomotiva global da nova Era Digital.

Alexis Rockenbach

Co-fundador e CEO da Compasso e Head de Inovação do UOL DIVEO. Bacharel em Ciência da Computação pela UPF, completou também especialização em Planejamento de Marketing pela ESPM, Mestrados em Ciência da Computação pela UFRGS, e participa do programa de Educação Executiva OPM da Harvard Business School nos EUA. Tem mais de 20 anos de experiência na aplicação da tecnologia da informação para transformação de negócios, com ênfase especial nas indústrias financeira, varejo online e telecomunicações.