Preciso mesmo complicar para inovar?

Depois de 20 anos trabalhando ininterruptamente com Web (e inexoravelmente com a TI ao seu redor) e acompanhando praticamente como tudo começou, como está evoluindo e para onde vai, você se sente confortável para falar do assunto com algum conhecimento de causa. Afirmo com segurança que, nesse tempo todo, a palavra que mais ouvi foi “inovação”. Eu sei: inovar não é ato exclusivo de TI. A NASA, por exemplo, a tem em seu DNA e mostrou sua importância durante a Corrida Espacial, no século passado. E não só ela, mas também a antiga (e rival) União Soviética. A partir de 1760, em outro exemplo contundente, a própria Revolução Industrial foi um marco em inovação que moldou tecnologia, indústria, comércio, relações humanas e processos de forma indelével.

Uma busca simples pelo termo “inovação” no Google retorna, sem maiores refinamentos, 102 milhões de resultados. Em inglês, “innovation” aparece 448 milhões. Ok, desconte as empresas que possuem a palavra no Nome Fantasia por puro modismo e mesmo assim temos um indicador da importância da palavra.

Fica claro, portanto, porque existem tantos mantras que utilizam essa palavra, a maioria deles compelindo pessoas, processos e empresas a serem sempre criativos, revolucionários, visionários. Algumas vezes de forma orgânica, fluida, inerente ao seu modus operandi; outras, de forma paranoica, obstinada e atabalhoada. Esse é o momento em que ela começa a trabalhar contra tudo aquilo para o qual deveria servir; é quando a inovação complica ao invés de descomplicar.

Quando falo de complicar estou me referindo àquele modelo de inovação que parte da premissa “Preciso inovar, e para isso eu tenho que criar algo mirabolante”. Não consigo conceber uma conexão que justifique que inovar significa inventar algo hiperbólico. Para mim, na verdade, deve ser o contrário: uma das funções importante da inovação (entre tantas outras) é simplificar e obter resultados maiores e melhores com cada vez mais simplicidade.

Recentemente li um artigo médico que unia os conceitos de inovação com IoT. O tom do artigo era utópico, com ares de ficção científica, e concluía com algo do tipo “ansiamos por um dia em que inventarão ferramentas que, conectadas e acessíveis remotamente, possam informar o estado de um paciente de maneira ativa, nas quais poderemos intervir prontamente mesmo à distância”. Do ponto de vista da inovação, o autor se mostrou um romântico adepto da complicação: precisamos realmente criar algo que ainda não existe para atingir algum estágio inovador? Não seria inovador o suficiente criar não um novo monitor cardíaco que converse com a Web, mas apenas um acessório que se conecte aos já existentes, para atender dentro dos conceitos de IoT?  O fato é que a adoção do pensamento inovador não deve se ater exclusivamente à criação de algo novo, mas também à revisão de processos, fossilizados pelo tempo. O que nos faz entender porque, então, ainda encontramos resistência: por causa do fator intangibilidade. Pensar a inovação de forma complicada leva à intangibilidade, ao inacessível, através da seguinte inferência:

SE Para inovar eu tenho que (re) inventar algo do zero
E (re) inventar algo do zero demora e dá trabalho.
E se demora, não se paga e não gera resultado a curto prazo.
PORTANTO não é viável inovar”.

 Um exemplo clássico que mostra o quanto inovar não é apenas inventar: o mesmo programa espacial da NASA do século passado, que citei mais acima, deparou-se com o seguinte problema: como fazer funcionar uma caneta em ambiente de micro gravidade? E milhares de dólares foram investidos para criar uma caneta que permitisse aos astronautas escrever em ambiente tão inóspito. Dinheiro empreendido, resultado não obtido: as canetas inventadas não funcionavam, a despeito de tanta reinvenção e verba investida. O que o programa rival e contemporâneo soviético fez para resolver o mesmo problema? Utilizou lápis no lugar das canetas (um agradecimento aqui ao Marco Antônio Tangari por ter me lembrado desse caso). Isso também é inovação!

Não quero me fixar à ideia de que inovar é apenas criar ajustes e acessórios ao que já existe, mas que TAMBÉM É. E que ao pensar uma forma de simplificar um processo, mesmo que você utilize recursos que já existem (como o lápis para os soviéticos) você pode eliminar o ranço que te desmotivaria a inovar.

Marcelo Simonka.

 

Marcelo Simonka

Marcelo Simonka orbita a Web há vinte anos, quando se formou pela ECA-USP e se especializou em Webdesign. De lá pra cá percorreu várias áreas desse universo, passando pela criação, atendimento, desenvolvimento e finalmente chegando em qualidade e processos.