Siga o coelho branco

A indústria de TI – Tecnologia da Informação – vem impactando as estruturas e estratégias dos negócios faz algum tempo. O que antes era visto apenas como automação de processos tem se tornado uma ferramenta de transformação. Isto é fato. Os gestores de TI tem tido cada vez mais desafios em elevar o tema à agenda da alta direção que começa a entender a área não apenas como um centro de custos. Cabe a estes profissionais e me incluo no grupo, olhar o menu de opções e buscar as inovações mais relevantes ao tipo e ao momento do negócio. Nosso atual cenário relativo à política e economia (esta é a sequência mais correta pois a primeira impacta na segunda), conduz a um maior ceticismo com relação aos nossos gastos. Olhar para o futuro, lembrar do passado como base para agir no presente pode ser uma boa postura.

Adotar ou não adotar esta ou aquela tecnologia, ser mais ou menos agressivo nas inovações, ser o pioneiro em uma tendência ou aguardar com cautela para sentir os impactos. Estas questões estão em evidência nos pensamentos dos executivos diante da pressão por redução de investimentos e despesas.

São muitos os “candidatos em inovação tecnológica” diante de recursos escassos.

Recursos como pessoas, tempo e dinheiro. As novidades em termos de gestão da informação, ligadas ao impulso que podem dar aos negócios, tem sido destaque das discussões sobre administração.

Como exemplo, eu poderia ter usado para o título deste texto a frase “Ascenção e queda do CRM – sigla do inglês Customer Relationship Management ou Gestão de Relacionamento com os clientes”, só para citar uma delas. Confesso que já foi um tema bastante quente, digamos assim. Quando lembro das promessas de melhoria na qualidade do relacionamento com o mercado e vejo hoje a relação dos campeões de reclamações em sites como o “Reclame aqui” me pergunto qual parte do filme eu perdi. Ainda mais quando os campeões de audiência – os 5 primeiros – são empresas de TI.

A partir disto, vamos então exercitar o olhar para o futuro como direção, analisar o passado e seus resultados versus as promessas feitas.

O poder da captura, armazenamento, tratamento e distribuição de informação na era da Internet está tomando uma dimensão muito maior do que no passado,

com fontes de dados muito mais polarizadas e disponibilizadas na maioria das vezes de graça. Imagine a imensidão de dados em áreas como varejo, bancos, hospitais. O conceito por traz do tema “Big Data” considera modernas tecnologias para a gestão dos dados estruturados. Além disto e o mais fascinante, dos dados não estruturados ou não estruturáveis, somando-se ao pacote complexos algoritmos, o uso de inteligência artificial e o domínio da estatística, o que torna tudo isso fascinante.

Lembro-me dos primeiros textos sobre BI – Business Intelligence ou Inteligência de Negócios – surgindo muitos anos atrás como maravilhas em potencial para mudanças nos negócios. Assusto-me com frequência o quão amplo estas duas palavras tem se tornado. Praticamente a “bala de prata” que irá catapultar seus negócios para os potes de ouro ao final do arco íris.

Lecionei muitos anos a disciplina de TI aplicada aos negócios para a faculdade de administração. Um dos textos campeões de audiência durante minhas pesquisas de mestrado trazia como título:

o que cerveja tem a ver com fraldas

Reproduzo aqui o início do artigo: “Você acredita em ETs? E num investimento que dá um retorno médio de 400% em três anos? O responsável por tal façanha, segundo um estudo do respeitado International Data Corporation (IDC), é o mais novo fetiche tecnológico do mercado: chama-se armazém de dados ou, em inglês, data warehouse. Basicamente, é um sistema de computadores onde ficam guardadas todas as informações da empresa. Nele, os executivos podem obter, de modo imediato, respostas para as perguntas mais exóticas e, com isso, tomar decisões com base em fatos, não em meras intuições ou especulações misteriosas.”

Na época utilizei este mesmo texto em minhas aulas sobre criação de vantagens competitivas. No entanto, destacando a importância do papel do analista da informação ou seja, para os meus alunos e futuros gestores, era importante considerar este perfil profissional como oportunidade de carreira para um administrador. Explicava eu que poderíamos dar as mesmas bases de dados a várias pessoas e com certeza, os resultados a partir das análises seriam muito diferentes. E aí estaria o “pulo do gato”.

Atualmente tenho revisado minhas pesquisas sobre o uso inteligente da informação como alavanca para superação nos negócios e tenho encontrado muitos textos ligados à “Big Data”. O autor Salim Ismail sustenta na sua obra “Exponential Organizations” que a busca por novas fontes de informação para sustentar novas companhias e negócios seria a essência da revolução rotulada como “Big Data”.

Encontrei padrões entre as aulas que ministrei no passado e estes textos no presente. Um dos artigos que selecionei, publicado nos periódicos da Harvard Business Review em Outubro de 2012 intitulado “Data Scientist: The Sexiest Job of the 21st Century” dos autores Thomas H. Davenport e D.J. Patil, alerta que a falta de profissionais estava sendo uma restrição aos avanços desta tecnologia, mostrando o poder das análises de grandes massas de dados. Analisando com calma, acredito que a essência continua sendo a mesma ou seja, a sagacidade do analista destes dados, que no artigo é carinhosamente chamado de “Cientista de Dados” é o fator de maior ou menor sucesso. Em um dos trechos do artigo, as “sacadas” foram obtidas analisando-se os dados do LinkedIn. A partir delas, novas funcionalidades no portal levaram ao aumento de hits de forma significativa e portanto, agregaram valor ao “negócio”, que é o tema central deste ensaio.

As possíveis aproximações sugeridas pelos algoritmos escritos pelo “Cientista de Dados”, criaram ações automáticas. Como exemplo mostrado no artigo, se você conhece Inácio e Ana (mudei um pouco os nomes para dar mais nacionalidade ao texto), existe alta probabilidade de que eles se conheçam. A partir disto, começam as sugestões de novas conexões. A teoria acabou virando uma funcionalidade padrão do site. O resultado foi uma atração maior para os “anunciantes”. A nova funcionalidade chamada de “Pessoas que você talvez conheça” alcançou uma taxa de cliques (click-through) 30% maior do que a taxa obtida por outros avisos. Estas “sacadas” foram obtidas pelo PhD em Física por Stanford, Jonathan Goldman que desempenha este papel do profissional chamado de “Cientista de Dados”. Neste caso, cientista no sentido literal da palavra. O título, que confesso ser um pouco sem graça, foi inventado em 2008 por D.J. Patil e Jeff Hammerbacher, e novamente surge como a “oportunidade do século” nos ciclos de capacitação e cursos on-line.

Aprendi ao longo destes anos lidando com grandes projetos de TI que, cada momento corporativo e de mercado demandam por abordagens específicas, o que em outras épocas era chamado carinhosamente de “alinhamento de estratégias de TI com estratégias de negócio”. Diante de uma frequência ainda mais forte de inovação como nos tempos atuais, um olhar crítico deve superar o olhar romântico dos apaixonados pela tecnologia. Tecnologia por si só não agrega o devido valor à empresa. Portanto, o investimento deve considerar também processos, pessoas, métodos e indicadores de acompanhamento e ajuste. Em momentos de escassez de recursos, é recomendável paciência e análise para conter impulsos na adesão das novas ondas. Cabe a você gestor de negócios (e não apenas de TI), decidir qual o caminho e a partir dele quais escolhas fará para obter o melhor resultado.

As cartas estão na mesa.